Há encontros que fazem bem — daqueles que nos tiram da rotina e nos reconectam com o que realmente importa: sentir, compartilhar, estar presente. A arte tem esse poder silencioso de nos reorganizar por dentro. E foi com essa energia de acolhimento e troca que Porto Alegre recebeu, na noite de terça-feira (14), a abertura nacional do Palco Giratório, um dos mais importantes projetos de circulação das artes cênicas do país.
Pela primeira vez, a Capital gaúcha foi escolhida para dar início ao circuito, que em 2026 levará 16 grupos de teatro, dança e circo a 113 cidades brasileiras. Mais do que números, o que se percebe já na estreia é a proposta de criar experiências culturais que aproximam pessoas — especialmente famílias — em torno de histórias, emoções e reflexões compartilhadas.
A noite de lançamento reuniu artistas, gestores culturais e público em geral em um clima de celebração e curiosidade. O espetáculo de abertura, “Frankinh@ – Uma História em Pedacinhos”, do Coletivo Gompa, ocupou o Teatro Simões Lopes Neto com delicadeza e potência. Inspirada na obra de Mary Shelley, a montagem dirigida por Camila Bauer — vencedora do Prêmio Shell de Melhor Direção — mistura teatro, dança e artes visuais para falar de temas universais como crescimento, solidão e aceitação, de um jeito acessível e sensível para todas as idades.
A escolha do espetáculo já aponta o tom desta edição: um olhar atento para o humano, para aquilo que nos atravessa e, muitas vezes, não sabemos nomear.
A mostra de abertura segue até o dia 17 de abril, com uma programação gratuita que ocupa diferentes espaços da cidade. É uma oportunidade rara de circular por Porto Alegre com outros olhos — ou talvez com o coração mais aberto. Entre os destaques, está a estreia do documentário “Amir e Tizumba, Tizumba e Amir”, na Cinemateca Capitólio, que aproxima trajetórias marcantes da cultura popular brasileira, e o espetáculo de dança “Encruzilhada”, no Teatro Renascença, que propõe uma reflexão sobre identidade e resistência.
Além das apresentações, o projeto também investe na formação. O 7º Seminário Palco Giratório, que ocorre em etapas ao longo do ano, reúne nomes importantes do pensamento e da prática artística, como Leda Maria Martins, Paloma Carpio e Francis Wilker. São encontros que ampliam o olhar e convidam à escuta — algo tão necessário nos dias de hoje.
Durante o lançamento, o gerente interino de Cultura do Departamento Nacional do Sesc, Leonardo Minervini, destacou a essência do projeto:
“O Palco Giratório traz um conjunto de espetáculos cuidadosamente selecionados por uma curadoria nacional, reunindo públicos diversos em torno de temas contemporâneos. O circuito celebra as artes cênicas em seu potencial de promover reflexão conjunta e fortalecer laços afetivos.”
Essa ideia de fortalecer laços talvez seja o fio mais bonito que atravessa toda a programação. Em um tempo marcado por pressa e excesso de estímulos, parar para assistir a uma peça, ouvir uma história ou se deixar tocar por uma performance é quase um ato de cuidado consigo mesmo.
Para o diretor regional do Sesc/RS, Marcelo de Campos Afonso, iniciar o circuito em Porto Alegre ganha ainda mais significado neste ano especial:
“É um marco que reforça o caráter de encontro do projeto, aproximando diferentes territórios, linguagens e públicos.”
E esse espírito de encontro se expande ainda mais com a chegada do 20º Festival Palco Giratório Sesc em Porto Alegre, que acontece de 19 de maio a 3 de junho. Em duas décadas, o festival se consolidou como uma ponte entre artistas e público, e nesta edição celebra sua trajetória com uma programação robusta: serão 62 sessões distribuídas em 17 espaços culturais da cidade.
A curadoria aposta na diversidade como experiência compartilhada — uma escolha que dialoga diretamente com o momento em que vivemos. Segundo a gerente de Cultura do Sesc/RS, Luciana Stello:
“Celebrar os 20 anos do Festival Palco Giratório Sesc em Porto Alegre é reconhecer a força de um projeto que, ao longo de duas décadas, vem construindo pontes entre artistas e público, ampliando o acesso e fortalecendo a cena cultural no Estado.”
Entre os destaques, está a leitura cênica “70!”, com o ator Cacá Carvalho, que propõe uma reflexão sensível sobre o envelhecimento, costurando memória, tempo e experiência em uma narrativa íntima. Já Eduardo Moscovis sobe ao palco com “O Motociclista no Globo da Morte”, trazendo à cena uma história que tensiona questões contemporâneas como violência, masculinidade e responsabilidade individual.
A música também encontra seu espaço dentro da programação, ampliando a experiência sensorial do público. O espetáculo “O Baile da Mana Flor Convida Fernanda Copatti” mistura forró, performance e música brasileira em uma proposta vibrante e coletiva. Já Marcelo Jeneci promete um show marcado pela proximidade e pela delicadeza, em uma atmosfera que convida à escuta e ao sentir.
A curadoria, assinada por Jane Schoninger, parte de um princípio simples e potente: a diversidade como caminho para o encontro.
“A programação desta edição foi construída a partir da ideia de diversidade como experiência compartilhada. Buscamos reunir espetáculos que dialoguem com diferentes linguagens e temas contemporâneos, mas que, ao mesmo tempo, possam ser fruídos por públicos de diferentes idades.”
Talvez seja justamente isso que torna o Palco Giratório tão especial: ele não é apenas um festival, mas um convite. Um convite para desacelerar, para olhar ao redor, para se permitir sentir.
No fim das contas, sair para assistir a um espetáculo pode parecer um gesto simples. Mas, em tempos em que o bem-estar também passa pelas experiências que escolhemos viver, pode ser exatamente o que a gente precisa para se reconectar — com a cidade, com o outro e, principalmente, consigo mesmo.
Porque, às vezes, tudo o que a gente precisa é de uma boa história para lembrar que não estamos sozinhos.
Fonte: Moglia Comunicação Foto: Vilmar Carvalho
