Às vezes, o bem-estar está em algo muito simples: mudar o jeito de olhar. Caminhar pelas mesmas ruas, ver os mesmos prédios, cruzar com as mesmas pessoas — mas com um olhar mais atento, mais gentil, quase como se fosse a primeira vez. É nesse exercício silencioso que a gente redescobre a beleza do cotidiano e, de quebra, também se reencontra.
É exatamente esse convite que a exposição “Porto Alegre: Olhares Efêmeros” propõe ao público de Porto Alegre. Em cartaz de 17 de março a 15 de maio de 2026, na sala leste do 2º pavimento do Paço Municipal de Porto Alegre, a mostra reúne mais de trinta fotógrafos que, juntos, constroem uma narrativa sensível sobre a cidade — feita de instantes, encontros e pequenas histórias.

Com curadoria de Denise Giacomoni (Foto Celebração, capa da matéria), a exposição apresenta um novo capítulo em relação à mostra anterior, “Veracidade”, que privilegiava o preto e branco. Agora, é o colorido da cidade que ganha protagonismo — como se Porto Alegre revelasse suas nuances mais íntimas através de olhares diversos.
A proposta é simples e, ao mesmo tempo, profunda: olhar para o cotidiano com olhos de viajante. Aquela ideia bonita de perceber que nenhuma cidade é igual à outra — e que, talvez, a nossa própria cidade também possa ser descoberta todos os dias, dependendo de como a gente escolhe enxergar.
“A proposta é trazer ao público diferentes percepções sobre a cidade, revelando momentos que muitas vezes não se repetem — fugazes como a própria fotografia e como a vida.”
“Olhares Efêmeros” nasce justamente dessa consciência do tempo que passa. Do instante que não volta. Da cena que acontece e desaparece quase sem ser percebida. A fotografia, nesse sentido, se torna uma tentativa delicada de segurar o tempo — ainda que por um segundo.
Inspirada na ideia de que “o tempo voa” — o clássico tempus fugit —, a mostra nos lembra que tudo é transitório: o olhar de quem fotografa, o momento registrado e até a forma como cada um de nós interpreta a imagem. Porque ver também é um exercício interno, que muda conforme mudamos.
Há algo de muito humano nisso tudo. O que hoje parece banal pode, amanhã, tocar fundo. O que ontem era extraordinário pode passar despercebido hoje. E está tudo bem. É justamente nessa impermanência que mora a beleza.
Reunindo 32 fotógrafos — entre nomes consagrados e novos olhares —, a exposição constrói um mosaico urbano que passa pelas pessoas, pelas ruas, pelos prédios e pelos detalhes que muitas vezes escapam na pressa do dia a dia. Entre os participantes estão artistas como Alexandre Freitas, Andréa Steiner Barros, Leandro Selister, Guto Monteiro, Heloiza Averbuck, entre outros tantos talentos que ajudam a contar essa história coletiva.
No fim, visitar “Porto Alegre: Olhares Efêmeros” é mais do que ver fotografias. É se permitir pausar. Respirar. E, quem sabe, sair dali com um novo jeito de caminhar pela cidade — mais atento, mais presente, mais conectado.
Porque o bem viver também passa por isso: aprender a olhar de novo para o que sempre esteve ali.
Fonte: Paulo Guerra
