Skip links

Olhar de novo

Às vezes, o bem-estar está em algo muito simples: mudar o jeito de olhar. Caminhar pelas mesmas ruas, ver os mesmos prédios, cruzar com as mesmas pessoas — mas com um olhar mais atento, mais gentil, quase como se fosse a primeira vez. É nesse exercício silencioso que a gente redescobre a beleza do cotidiano e, de quebra, também se reencontra.

É exatamente esse convite que a exposição “Porto Alegre: Olhares Efêmeros” propõe ao público de Porto Alegre. Em cartaz de 17 de março a 15 de maio de 2026, na sala leste do 2º pavimento do Paço Municipal de Porto Alegre, a mostra reúne mais de trinta fotógrafos que, juntos, constroem uma narrativa sensível sobre a cidade — feita de instantes, encontros e pequenas histórias.

Antigo terminal do Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, no anos 90 por Paulo Guerra
Antigo terminal do Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, no anos 90 por Paulo Guerra

Com curadoria de Denise Giacomoni (Foto Celebração, capa da matéria), a exposição apresenta um novo capítulo em relação à mostra anterior, “Veracidade”, que privilegiava o preto e branco. Agora, é o colorido da cidade que ganha protagonismo — como se Porto Alegre revelasse suas nuances mais íntimas através de olhares diversos.

A proposta é simples e, ao mesmo tempo, profunda: olhar para o cotidiano com olhos de viajante. Aquela ideia bonita de perceber que nenhuma cidade é igual à outra — e que, talvez, a nossa própria cidade também possa ser descoberta todos os dias, dependendo de como a gente escolhe enxergar.

“A proposta é trazer ao público diferentes percepções sobre a cidade, revelando momentos que muitas vezes não se repetem — fugazes como a própria fotografia e como a vida.”

“Olhares Efêmeros” nasce justamente dessa consciência do tempo que passa. Do instante que não volta. Da cena que acontece e desaparece quase sem ser percebida. A fotografia, nesse sentido, se torna uma tentativa delicada de segurar o tempo — ainda que por um segundo.

Inspirada na ideia de que “o tempo voa” — o clássico tempus fugit —, a mostra nos lembra que tudo é transitório: o olhar de quem fotografa, o momento registrado e até a forma como cada um de nós interpreta a imagem. Porque ver também é um exercício interno, que muda conforme mudamos.

Há algo de muito humano nisso tudo. O que hoje parece banal pode, amanhã, tocar fundo. O que ontem era extraordinário pode passar despercebido hoje. E está tudo bem. É justamente nessa impermanência que mora a beleza.

Reunindo 32 fotógrafos — entre nomes consagrados e novos olhares —, a exposição constrói um mosaico urbano que passa pelas pessoas, pelas ruas, pelos prédios e pelos detalhes que muitas vezes escapam na pressa do dia a dia. Entre os participantes estão artistas como Alexandre Freitas, Andréa Steiner Barros, Leandro Selister, Guto Monteiro, Heloiza Averbuck, entre outros tantos talentos que ajudam a contar essa história coletiva.

No fim, visitar “Porto Alegre: Olhares Efêmeros” é mais do que ver fotografias. É se permitir pausar. Respirar. E, quem sabe, sair dali com um novo jeito de caminhar pela cidade — mais atento, mais presente, mais conectado.

Porque o bem viver também passa por isso: aprender a olhar de novo para o que sempre esteve ali.

Fonte: Paulo Guerra

Ver+
Conhecer