Por Adriano Cescani
Há dias que parecem feitos sob medida para aquecer a alma. Em meio ao corre-corre da rotina, viver um momento assim é como respirar fundo e lembrar do que realmente importa: a beleza de estar presente, de se conectar com a nossa terra, com as pessoas e com os sabores que contam quem somos. Foi exatamente isso que senti em Gramado, no Festival Gaúchos, que iniciou no dia 05 de setembro e vai até o dia 28. Um daqueles dias que ficam guardados para sempre na memória, envoltos por um sorriso leve e um orgulho que não cabe no peito.
A cidade parecia ter um brilho diferente. Caminhar pelo centro de Gramado naquela tarde de setembro foi como entrar em um cenário de filme, onde a história do Rio Grande do Sul se encontrava com a modernidade do nosso tempo. Logo ao chegar na Rua Coberta, fui recebido por um clima de festa, de reencontro e de pertencimento. Ali aconteceria a cerimônia de abertura oficial, seguida do espetáculo “Gaúchos”, um verdadeiro presente para os olhos e para o coração.

Confesso que não esperava me emocionar tanto. Mais de 50 artistas subiram ao palco com a força de quem carrega no corpo e na voz o amor pelas nossas tradições. Cada passo de dança, cada acorde, cada olhar dos intérpretes parecia dizer: “somos daqui, e temos orgulho disso”. Assinado pela talentosa equipe da Darte Entretenimento, o espetáculo foi grandioso, vibrante e, ao mesmo tempo, delicado — daquelas experiências que despertam lágrimas discretas no canto do olho e deixam um arrepio bom na pele.
Saí de lá com o coração leve, como quem volta para casa depois de ouvir uma boa história ao pé do fogo. E a minha jornada pelo festival estava só começando.
Cultura que se saboreia
Segui para um tour pelo evento no dia seguinte, passeando entre as atrações que ocupavam o centro da cidade. A cada esquina, algo novo chamava a atenção — uma mostra, uma dança, um sorriso oferecido de graça. Na Matearia Capitão Rodrigo, no Largo da Borges, mergulhei na história do nosso chimarrão e fui presenteado com um mate gelado que trazia a força da tradição com um frescor surpreendente. O sabor amargo e revigorante da erva, o aroma de campo e a conversa com quem entende do assunto me fizeram lembrar que bem-estar também é isso: parar por um instante, escutar e saborear o momento.
Logo adiante, um grupo de dançarinos tomava conta da Rua Coberta com o espetáculo Dança Rio Grande. Os trajes coloridos, o compasso marcado e os sorrisos sinceros de quem dançava faziam o tempo desacelerar. Ver a paixão naqueles movimentos me lembrou que a cultura só permanece viva quando é dançada com o coração — e ali, ela pulsava com força.
No Piquete do Lago Joaquina Rita Bier, o tão aguardado Cordeiraço, que nesta edição do Festival Gaúchos se tornou um símbolo da nossa riqueza gastronômica. No comando da grelha estava o chef Marcos Livi, um dos grandes nomes da cozinha gaúcha contemporânea.

A cena era linda: a fumaça dançando no ar, o aroma do cordeiro assado lentamente, o som das conversas e risadas misturado ao crepitar do fogo. Provar aquele prato foi muito mais do que saborear uma carne perfeitamente preparada — foi sentir o sabor da nossa história, do nosso campo, da nossa gente. Um gosto que abraça e conforta, como um domingo na casa da vó.
Pensei em como o Festival Gaúchos consegue unir tudo o que temos de melhor: a tradição que nos orgulha, a criatividade que nos impulsiona e o carinho com que recebemos quem chega até aqui. É um evento feito por muitas mãos talentosas — de chefs e artistas, produtores e organizadores, patrocinadores e parceiros — todos movidos pelo mesmo propósito de celebrar o que temos de mais autêntico.
Orgulho de ser daqui
Voltei para casa com os olhos cheios de beleza, o coração aquecido e uma certeza serena: o orgulho de ser gaúcho não está só nos símbolos que usamos ou nas histórias que contamos, mas na forma como seguimos cultivando o que herdamos, reinventando sem perder a essência.
O Festival Gaúchos é isso: um lembrete de que as nossas raízes podem, sim, ser asas. E que celebrar quem somos — com arte, sabor e afeto — é uma das formas mais bonitas de viver o bem-estar.
Naquele dia, entre um gole de mate, uma dança e um cordeiro assado no fogo de chão, percebi que a felicidade, muitas vezes, tem gosto de tradição. E que a vida, quando dançada no ritmo do coração, pode ser ainda mais bonita.
O jornalista Adriano Cescani viajou à convite da Pauta Conexão e Conteúdo.
