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Entrelaços que acolhem

Em meio à correria dos dias, encontrar espaços que nos convidam a desacelerar, respirar e simplesmente sentir já é, por si só, um gesto de bem-estar. A arte tem esse poder silencioso de nos reconectar com o que somos — e é justamente essa experiência que a exposição “Entrelaces”, da artista Delise Renck, propõe ao público de Porto Alegre, na semana em que a cidade celebra mais um ano de vida.

A mostra, que abre no dia 26 de março, chega como um convite delicado à contemplação. Com curadoria de Paulo Amaral, ela ocupa os espaços da Galeria de Arte Habitart, sob o olhar atento e sensível da galerista Marilene Bittencourt. Ali, cada obra parece sussurrar histórias que atravessam o tempo, a memória e as emoções.

“Entrelaces” não é apenas o nome da exposição — é também uma de suas séries mais emblemáticas, que inspira o percurso da mostra. Ao lado dela, outras coleções como “Reflexos”, “Entre Mares e Montanhas”, “Fluxos” e “Revelações” compõem um mosaico afetivo da trajetória da artista. Em suas criações, Delise transita com leveza entre o semiabstrato e o figurativo, explorando técnicas como a pintura em acrílico e a colagem, em composições que parecem flutuar entre o real e o sonho.

Há, em muitas de suas obras, a presença feminina — figuras que surgem como guardiãs de sentimentos, inseridas em cenários que evocam tanto o concreto quanto o imaginário. É como se cada tela abrisse uma pequena janela para universos internos, convidando quem observa a mergulhar em si mesmo.

Outro traço que chama atenção é o uso de tons quentes, especialmente nuances de âmbar, que envolvem o olhar em atmosferas quase meditativas, carregadas de mistério e profundidade. Em trabalhos mais recentes, a artista amplia esse diálogo ao retratar rostos femininos de diferentes culturas na série “Regard”, onde identidades se encontram e se entrelaçam em jogos de luz e sombra.

“Com ‘Entrelaces’, convido o público a percorrer diferentes momentos da minha produção, onde experiências, viagens e memórias se entrelaçam em constante transformação.”

Mais do que uma retrospectiva, a exposição é um percurso sensível pela história de Delise Renck — uma artista que, ao longo das últimas décadas, vem tecendo sua linguagem com estudo, experimentação e vivências pelo mundo. Com formação em Publicidade e Propaganda pela PUCRS, ela encontrou nas artes visuais seu espaço de expressão, aprofundando-se em estudos de História da Arte e técnicas diversas, com nomes como Lou Borghetti, Bea Balen Susin e Gustavot Diaz.

Sua trajetória também ultrapassa fronteiras: com participações em salões internacionais nos Estados Unidos — onde foi premiada — e exposições em países como Peru, Ucrânia, Espanha e Emirados Árabes Unidos, Delise constrói uma obra que dialoga com diferentes culturas. Hoje, divide sua produção entre Porto Alegre e Cascais, onde mantém seus ateliês.

A abertura da mostra também marca um novo capítulo: o lançamento de seu site oficial e de um libreto que reúne parte de sua produção — mais um gesto de compartilhamento com o público, ampliando o alcance de sua arte.

Já a Galeria de Arte Habitart, localizada no bairro Três Figueiras, se firma como um espaço vivo da cena cultural porto-alegrense. Mais do que abrigar exposições, a galeria pulsa com atividades que vão de saraus musicais a cursos e encontros criativos, criando um ambiente onde a arte se mistura ao cotidiano e se torna acessível, próxima, quase íntima.

Visitar “Entrelaces” é, no fim das contas, permitir-se um tempo de pausa. Um respiro em meio à rotina. Um encontro com cores, formas e sensações que, de alguma maneira, também nos ajudam a reorganizar o que sentimos por dentro. Porque, às vezes, tudo o que a gente precisa é disso: um pequeno momento de beleza para lembrar que a vida — assim como a arte — também é feita de encontros, camadas e delicados entrelaços.

Fonte: Criz Azevedo Foto: divulgação

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