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Comecei a envelhecer aos dez anos de idade…

Por @adrianocescani

Tive uma infância feliz. Morávamos em uma casa antiga, na Zona Norte de Porto Alegre, em uma avenida que hoje é uma das artérias da cidade. Na época, no início dos anos 1980, a região respirava progresso — se é que hoje podemos chamar de avanço urbano a substituição de ruas de paralelepípedo por largas vias de asfalto. O bairro se despedia de suas últimas moradias, que estavam sendo sufocadas por estabelecimentos comerciais. Tínhamos apenas três vizinhos, todos já idosos. Talvez aí esteja a explicação para eu não conviver com crianças da minha idade fora do ambiente escolar.

Confesso que nunca achei isso um problema, de verdade! Para dentro do portão da casa — que ficava junto à calçada, já que o desenvolvimento “roubou” o lindo jardim que tínhamos para a ampliação da Sertório — criei meu mundo perfeito. No longo corredor lateral, andava de bicicleta, sempre acompanhado da Sasha, uma cadela da raça Pastor Alemão, mais velha do que eu pelo menos uns dois ou três anos. Subia destemido no limoeiro plantado no fundo do pátio, acreditando nos meus superpoderes. O terreno era tão grande — tudo para uma criança parece o dobro do que realmente é — que cabia uma piscina plástica dessas de 10 mil litros. E tínhamos dois balanços, onde eu dava meus embalos quase mortais — assim eu achava.

Mas era no meu quarto que a imaginação mais florescia. Brincava sozinho com os meus gravetos, desenhos recortados… Sim! Eu tinha brinquedos, mas gostava mesmo daqueles que eu criava, a partir da minha criatividade. Sentado no chão, entre as camas — a minha e a do meu irmão —, que ficavam em L, e uma cômoda dourada de vime, linda e comprida, eu viajava na minha imaginação. E foi ali, neste quarto, numa noite, aos 8 ou 9 anos, que tive meu primeiro pensamento sobre envelhecer e a ideia de finitude.

Na escuridão, abri os olhos. Pensei: daqui a 10 anos terei 20 anos. Dez anos depois, completarei 30 e, depois, 40, 50, 60… Ixi! Ali, pela primeira vez, tive uma sensação de pânico. Tentei me acalmar e refletir que poderia chegar aos 90, quem sabe aos 100 anos. Mas e depois? Morreria? O que seria a tal morte? Meu Deus?! Eu nem tinha uma década de vida e já estava pensando no que seria quando não estivesse mais neste planeta? Fechei os olhos. Adormeci.

No último dia 14 de setembro, completei 49 primaveras. Estou a doze meses de meio século de vida. Não contei nos dedos esses quase cinquenta anos como aquele guri. Mas, de fato, a sensação é que eles voaram, confirmando a teoria dos meus avós, que sempre diziam: a vida passa num piscar de olhos.

Não me sinto um cinquentão. Longe disso. Parece que tenho uns 30 e poucos. E não tenho a síndrome de Peter Pan. Só custo a acreditar que quatro décadas e nove anos já foram vividos por mim. Acredito, claro, porque já os vivi. E já vivi — e senti — as marcas da vida ao longo desses anos, como perdas, insucessos, sucessos, começos e términos.

Hoje percebo que comecei a envelhecer lá na primeira infância, com aquele pensamento matemático de contar a vida através das décadas. E, de fato, ao sairmos do útero materno, já corremos em direção à finitude e, a cada dia, ficamos mais velhos. É assim com todo mundo!

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