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A delicadeza do instante

Na correria do dia a dia, muitas vezes deixamos de reparar na beleza que mora nas pequenas coisas: a forma de uma folha caída na calçada, o brilho discreto de uma flor que resiste ao concreto da cidade, a leveza de um caule ao vento. Reconectar-se a esses detalhes pode ser um caminho de bem-estar, uma pausa para respirar e se lembrar de que a vida também é feita de instantes delicados. É exatamente esse convite que a artista Tâmisa Trommer faz em sua nova exposição “Efêmera”, que abre no dia 6 de setembro, na Galeria Habitart, em Porto Alegre.

A mostra reúne obras que exploram a delicadeza dos elementos botânicos em composições criadas com técnicas tradicionais e experimentais. Flores, raízes, caules e folhas deixam de ser apenas matéria orgânica passageira e se tornam símbolos de memória, impermanência e beleza.

“Trabalho com fotografia, gravura, pintura, desenho e vídeo. Ao ampliar plantas em escala e detalhe — coletadas em zonas urbanas e de transição — busco criar encontros visuais que suspendem o tempo e convidam a uma percepção ampliada daquilo que muitas vezes é negligenciado, descartado ou incompreendido”,
explica Tâmisa.

Um olhar para o invisível

O nome da exposição não poderia ser mais apropriado. “Efêmera” nos lembra de que nada é permanente — e é justamente nisso que reside a beleza. Cada obra de Tâmisa é construída a partir de elementos vegetais coletados nos seus caminhos, seja em lugares onde viveu, transitou ou que surgiram de forma inesperada. Esses fragmentos naturais carregam memórias: o sol que os tocou, a terra em que cresceram, as condições ambientais que moldaram sua forma.

“Cada espécime com o qual trabalho está diretamente ligado a uma geografia pessoal. Esses fragmentos carregam uma memória material — de luz solar, de condições ambientais, de impermanência — e atuam como testemunhas do lugar”,
complementa a artista.

Ao transformar o banal em poético, a artista nos convida a perceber que até o que é transitório guarda potência. Assim como as plantas que ela coleta, também nós somos feitos de passagens, lembranças e transformações.

Arte como experiência de bem-estar

Mais do que contemplar obras, visitar “Efêmera” é um exercício de presença. Na correria cotidiana, parar diante de uma pintura, de uma gravura ou de uma fotografia que amplia os detalhes de uma planta pode ser um gesto de cuidado consigo mesmo. É como se o olhar desacelerasse para enxergar além da pressa, abrindo espaço para respirar e sentir.

A galerista Marilene Bittencourt reforça essa experiência:

“A flora sempre é inspiradora nas suas mais diversas expressões ao longo de todo o ano. Tâmisa nos convida a olhar a beleza do ciclo das plantas em seus diferentes processos, onde a vivacidade e a efemeridade ganham a mesma distinção.”

A trajetória de Tâmisa Trommer

Nascida em Santa Maria (RS), em 1985, Tâmisa Trommer é artista visual com uma pesquisa dedicada às relações entre memória, deslocamento e natureza. Desde 2022, vive em Bérgamo, na Itália, onde aprofunda seu diálogo com a flora local e os ciclos da vida em contextos de trânsito cultural.

Com formação em Artes Visuais pela UFSM, pós-graduação em Design de Superfície e mestrado em Design, atualmente cursa também o Mestrado em Pintura na Accademia di Belle Arti G. Carrara. Sua produção já foi reconhecida em diferentes contextos: participou do Rumos Artes Visuais (Itaú Cultural), expôs no CCSP, no SESC Paulista e em bienais como a do Recôncavo Baiano e Olho Latino. Também foi premiada com o 1º lugar no SESI Descobrindo Talentos e tem obras no acervo público do Museu Brasileiro de Gravura.

O fio condutor de sua trajetória é sempre o mesmo: transformar a natureza em um espaço de memória e poesia visual.

Efêmera: um convite para olhar diferente

Ao reunir trabalhos em fotografia, gravura, pintura, desenho e vídeo, Tâmisa constrói um ambiente em que a arte e a natureza se encontram. Mais do que representar plantas, suas obras parecem revelar um universo escondido nelas — como se a cada raiz, pétala ou folha houvesse uma história silenciosa pedindo para ser ouvida.

Essa é a magia da exposição: provocar o visitante a rever a forma como olha para o mundo. O que antes era apenas “uma planta comum” pode, sob outro olhar, se tornar símbolo de resistência, memória e beleza.

No fundo, “Efêmera” nos lembra de que não precisamos esperar grandes acontecimentos para viver o encantamento. A vida se revela nos detalhes: no instante de observar o sol atravessando uma folha, na textura de uma raiz, no cheiro de uma flor esquecida no caminho.

Um encontro com o tempo

Vivemos em uma época em que tudo parece acelerado. “Efêmera” nos convida a desacelerar. Cada obra é um lembrete de que a vida não é sobre acumular, mas sobre sentir. É sobre se permitir a pausa, o olhar demorado, a respiração consciente.

Visitar a exposição é, portanto, mais do que uma experiência estética: é um gesto de autocuidado. É como se cada quadro dissesse baixinho: “viva o agora, porque ele também é belo, mesmo quando passageiro”.

Serviço

 Exposição: Efêmera
 Artista: Tâmisa Trommer
 Local: Galeria Habitart – Coronel Armando Assis, 286 – Bairro Três Figueiras – Porto Alegre/RS
 Abertura: 6 de setembro de 2025
 Período de visitação: de 10 de setembro a 18 de outubro, de quartas a sábados, das 14h às 18h
 Entrada gratuita
 Instagram: @galeriahabitart

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