Cuidar da mente é, muitas vezes, um dos gestos mais profundos de bem viver. Nem sempre escolhemos as dores que atravessam a nossa história, mas podemos escolher o que fazer com elas. Há trajetórias que nos lembram que o sofrimento, quando acolhido e elaborado, pode se transformar em consciência, presença e propósito.
A história da psicanalista Drika Shak nasce de uma perda devastadora. Aos 13 anos, ela viveu um trauma que marcaria sua vida para sempre: a morte repentina da mãe durante o parto da irmã, que também não sobreviveu. Sem uma rede de apoio emocional estruturada e ainda imatura para compreender o que havia acontecido, a adolescente precisou seguir em frente carregando um luto silencioso.
Foi nesse momento que fez, intimamente, um pacto consigo mesma: transformar a dor em propósito. Ali começava o desejo de compreender a mente humana, os afetos, os traumas e os caminhos possíveis de reconstrução.
Anos mais tarde, movida por uma busca profunda por sentido, Drika tomou uma decisão radical. Deixou faculdade, trabalho, família e um grande amor para viver durante 14 anos em um templo budista em Três Coroas (RS). O período foi de recolhimento, estudo e mergulho interior. Nesse tempo, construiu laços fundamentais: tornou-se mãe de Lucas e companheira de Ogyen Shak, tibetano com quem fundou o Espaço Tibet, que se tornaria referência cultural e gastronômica no Rio Grande do Sul — pioneiro em sua categoria no Brasil.
O sucesso no empreendedorismo veio, mas junto dele também a sobrecarga. Traumas não elaborados, lutos precoces e a pressão constante começaram a cobrar seu preço. Vieram problemas graves de saúde: tumor maligno, dores crônicas, distúrbios gastrointestinais. “Meu corpo passou a falar o que eu não consegui simbolizar por muitos anos”, relembra.
A virada aconteceu por meio da análise pessoal. O processo terapêutico não trouxe apenas recuperação física e emocional, mas também clareza. Era hora de encerrar um ciclo e retomar o compromisso feito ainda na adolescência. Hoje, aos 53 anos, vivendo a menopausa com saúde e assintomática, Drika inicia um novo capítulo como psicanalista clínica — com uma escuta atravessada pela experiência real de luto, adoecimento e reconstrução.
Neuropsicanálise: quando emoção e cérebro dialogam
Sua prática é fundamentada na Neuropsicanálise, abordagem que integra a tradição psicanalítica às descobertas contemporâneas das neurociências, especialmente da Neurociência Afetiva — campo desenvolvido a partir dos estudos do neuropsicanalista Mark Solms e de pesquisadores como Jaak Panksepp.
Essa perspectiva parte de um princípio essencial: as emoções não são um detalhe da nossa experiência — são centrais na organização psíquica. Medo, tristeza, luto, apego e cuidado possuem bases neurais específicas e cumprem funções fundamentais de sobrevivência.
Quando um luto não pode ser elaborado — especialmente em casos de perdas súbitas, múltiplas ou precoces — o cérebro pode permanecer em estado de ameaça. O sistema nervoso fica em alerta constante, gerando ansiedade persistente, depressão, culpa excessiva, dissociação e uma sensação difusa de vazio.
A Neuropsicanálise atua justamente na integração dessas experiências. Ao transformar memórias traumáticas em narrativas simbólicas, o sujeito sai do modo de sobrevivência e fortalece sua capacidade de regulação emocional. O corpo deixa de carregar sozinho aquilo que não pôde ser dito.
Não se trata de apagar o passado, mas de ressignificá-lo.
“Não falo em superação, mas em apropriação da própria história. Aquilo não deixa de existir, mas nos torna maiores do que a dor”, afirma Drika.
Pessoas Altamente Sensíveis (PAS): sensibilidade como potência
A abordagem também se mostra especialmente potente no cuidado de Pessoas Altamente Sensíveis (PAS), traço de personalidade presente em cerca de 15% a 20% da população.
Pessoas PAS vivenciam o mundo com maior intensidade emocional e sensorial. Têm empatia elevada, percepção aguçada de nuances e profunda capacidade de processamento afetivo. Não se trata de transtorno ou patologia — é uma característica de personalidade. Mas, em ambientes pouco acolhedores, essa sensibilidade pode se tornar fonte de sobrecarga e sofrimento.
Traumas, lutos e experiências de rejeição tendem a impactar essas pessoas de forma mais intensa. Muitas crescem ouvindo que são “exageradas”, “sensíveis demais” ou “dramáticas”, quando, na verdade, apenas possuem um sistema nervoso mais responsivo.
Na clínica, a Neuropsicanálise valida a sensibilidade como recurso — não como fragilidade. Ajuda a diferenciar o que é dor própria do que é dor absorvida do ambiente, trabalha limites psíquicos e favorece a integração saudável de emoções intensas.
Drika também se reconhece como uma pessoa altamente sensível. Sua escuta é atravessada por empatia genuína, mas sustentada por rigor teórico e científico. É a união entre vivência e estudo, entre experiência e técnica.
“Escuto com o coração e sustento meus pacientes como um dia precisei ser sustentada. Honro, todos os dias, o compromisso que fiz aos 13 anos.”
Quando o corpo pede escuta
A história de Drika nos lembra de algo essencial: o corpo não adoece por acaso. Muitas vezes, ele expressa o que a palavra ainda não conseguiu simbolizar. Traumas não elaborados, lutos silenciados e emoções reprimidas podem encontrar caminhos somáticos.
O bem viver não é ausência de dor — é capacidade de escuta. Escuta de si, do corpo, da história. É compreender que pedir ajuda não é sinal de fraqueza, mas de maturidade emocional.
Hoje, Drika Shak atende adultos de forma online por meio da Neuropsicanálise Clínica e é graduanda em Psicologia. Sua atuação integra ciência, escuta sensível e trajetória pessoal. Não promete fórmulas rápidas, nem discursos de superação simplificada. Oferece presença, sustentação e elaboração.
E talvez seja esse o ponto mais bonito de sua história: a dor que não foi negada, mas atravessada. A perda que não foi apagada, mas integrada. O sofrimento que não virou amargura, mas propósito.
Porque, no fim das contas, viver bem não é viver sem marcas — é transformar as marcas em consciência.
Fonte: Criz Azevedo Foto: divulgação
