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A arte que abraça: a ilustração como caminho para reconectar emoções em tempos digitais

Em meio à correria do dia a dia e ao constante brilho das telas, há algo profundamente curativo em ver uma imagem feita à mão. O traço humano carrega pausas, intenções e silêncios — qualidades raras em tempos acelerados. Em um cenário em que a tecnologia ocupa tanto espaço nas relações, resgatar o contato com a arte autoral pode ser um gesto de bem-estar, tanto para adultos quanto para crianças.

Pesquisas recentes, como a da Koi Tū: The Centre for Informed Futures, mostram que o uso recreativo excessivo de telas na infância pode afetar a criatividade, a empatia e até as habilidades sociais. Diante disso, educadores e artistas têm buscado formas de reconectar crianças ao universo sensível, àquilo que desperta encantamento e presença. E é justamente nesse ponto que a ilustração feita à mão volta a ganhar força — como linguagem emocional e ferramenta de afeto.

Um dos nomes que traduzem esse movimento é o do ilustrador, cartunista e professor Guilherme Bevilaqua, o Professor Laqua. Com quase três décadas de experiência, ele acredita que a ilustração vai muito além da estética.

“A ilustração é mais que bonita. Ela é ponte, é afeto. O que tocava você em um livro de infância era a imagem que te olhava de volta.”

Enquanto a inteligência artificial se multiplica em produções visuais perfeitas e instantâneas, cresce o debate sobre o que realmente torna uma imagem viva. Para Laqua, o que diferencia a arte feita à mão é a emoção que a move.

“Desenhar é sentir. Uma máquina pode copiar estilos, mas nunca vai viver as emoções que movem o traço de quem está contando uma história com o lápis. A arte manual carrega o tempo, a hesitação, o gesto. É por isso que toca.”

A ilustração infantil, além de seu valor artístico, tem papel essencial no desenvolvimento emocional e cognitivo das crianças. Ela estimula a leitura de mundo, incentiva a empatia e ajuda a lidar com sentimentos complexos como medo, saudade ou perda. Para o ilustrador, ilustrar para o público infantil é também um exercício de escuta.

“O ilustrador precisa ser alguém que ainda conversa com a criança que foi. É ela que guia a mão. Só assim a imagem encontra a verdade.”

Em resposta à padronização imposta pelas redes sociais e pelas imagens geradas automaticamente, cresce um movimento de resgate da autenticidade. Ilustradores têm buscado recuperar técnicas tradicionais — o grafite, a aquarela, o papel — e valorizar o processo tanto quanto o resultado. É um convite para desacelerar e criar com presença.

Oficinas e vivências presenciais também têm se mostrado fundamentais nesse reencontro com o fazer artístico. Estar diante do papel, observar o mundo e trocar experiências em grupo têm sido experiências quase terapêuticas.

“É bonito ver que muita gente está cansada da superficialidade e quer mergulhar. Esses encontros são sobre isso: mergulho. Papel de verdade, tinta de verdade, presença de verdade”, comenta Laqua.

Mais do que uma profissão, a ilustração é um gesto de reconexão — com a infância, com as emoções e com o tempo interior que tantas vezes esquecemos. Em um mundo de imagens demais e sentimentos de menos, desenhar com propósito é um ato de resistência suave. Uma maneira poética de lembrar que o humano ainda é o traço mais bonito que existe.

Fonte: Monalise Bürger – Sua Nova Ideia Foto: Pixabay

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