Por Adriano Cescani
Há momentos em que o corpo nos pede silêncio — e é no frio que aprendemos a escutá-lo. Logo no primeiro instante, senti uma espécie de alerta íntimo: cada sopro, cada batida, cada pensamento precisava estar presente. E isso, para mim, é bem-estar — não o conforto morno e previsível, mas o encontro com a própria coragem.
Neste fim de semana, em Porto Alegre, aceitei um desafio que parecia impossível: participar da aula de Hot & Cold na Melt Hot Yoga Clube. Já havia lido sobre terapias frias, imersões em água gelada, os mitos e as promessas — mas estar ali, entre o calor da sala e o choque de uma banheira a 4 °C, foi diferente. Era corpo, mente, presença — tudo junto.
Saí de casa com o frio na barriga , e fui encontrando em cada rua do bairro sentido, encolhido, talvez desconfortável. Mas já dentro da sala de aquecimento, com o ar morno envolvendo o corpo e o som suave conduzindo a respiração, senti que estava me preparando para algo maior. A professora Louize Paz conduziu a respiração com gentileza e firmeza, guiando-nos para dentro de nós — inspirar… expirar… sentir. E, em seguida, veio o coro do frio: o primeiro mergulho, o corpo inteiro submerso. A água gélida me agarrou num abraço silencioso, estranho, urgente. Em poucos segundos, um estranhamento profundo: a pele latejava, os músculos tremiam, a mente oscila entre o pânico e o júbilo. E, ao emergir, um choque profundo: leveza.
Fiz isso mais de uma vez. A cada imersão, o frio empurrava os limites conhecidos — as reservas de resistência, a vontade de desistir. Porém, depois, vinha uma calmaria intensa, diferente. Como se o corpo, liberto do excesso de calor, respirasse profundo. No frio, aprendi que a presença se encontra no limiar, não no conforto. Com meu corpo estremecendo, de mãos tremulas, ergui os olhos e enxerguei o mundo com clareza. A luz da sala parecia mais nítida, o som mais agudo, a respiração mais verdadeira.
Falo disso como Adriano Cescani, sim, porque gosto de olhar, escavar e narrar. E aqui cabe lembrar: a imersão fria é simultaneamente aguda e profunda. A ciência aponta benefícios interessantes — embora ainda com cautela:
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A exposição ao frio pode auxiliar na redução da inflamação e na dor muscular, por promover vasoconstrição e diminuir o extravasamento de líquidos nos tecidos.
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Também pode acelerar a recuperação física após esforços intensos.
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Há indícios de que reduz o estresse, melhora a qualidade do sono e beneficia o bem-estar global — especialmente em prazos curtos após a exposição.
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Alguns estudos mostram que as imersões em água fria aumentam o estado de alerta, a atenção e emoções positivas, enquanto reduzem ansiedade e angústia.
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No âmbito imunológico, há hipóteses de que a exposição ao frio estimule leucócitos e moduladores inflamatórios, embora os resultados sejam ainda preliminares.
Claro: a prática exige prudência. É essencial respeitar limites, não permanecer tempo excessivo, e evitar começá-la sem respaldo profissional em condições de saúde sensíveis.
Mas voltando à experiência pessoal: ao sair do frio, meu corpo parecia mais desperto — não no sentido agitado, mas no sentido de estar inteiro. Um estado de presença profunda me inundou. Tive ali a sensação de que o corpo cura sua própria distância de si. A pele ainda gelada reverberava energia; a mente, antes inquieta, agora clara e com espaço. O frio foi um motorista que me trouxe a mim mesmo.
Em Porto Alegre, naquele estúdio caloroso contrastando com as imersões geladas, descobri que o bem viver também pode vir pelo caminho da adversidade. Não digo que foi diversão — foi desafio. Mas, no desafio, nasceu uma confiança silenciosa: sou capaz de suportar, de me reinventar, de renascer em presença.
Hoje, ao relembrar aquilo – e vocês podem viver assistindo ao vídeo, sinto um eco de paz no corpo — não uma paz plácida e estática, mas uma paz que pulsa, que vibra no frio e no calor, no silêncio e no ritmo do coração. Recomendo essa experiência, se seu corpo permitir, se seu espírito quiser. Porque o bem-estar às vezes mora onde menos esperamos: no frio que nos acorda, no susto que nos une à vida real, no desconforto que nos reconstrói.
Fui convidado pela Prática Comunicação para viver a experiência.
